segunda-feira, 31 de maio de 2010

Pacto de mediocridade

Em algumas oportunidades já mencionei que sou professor em duas escolas e volta e meia me sinto muito desmotivado diante das dificuldades encontradas.

Mexendo na minha bagunça, achei um texto escrito pelo Cristovam Buarque que aborda a questão de educação e como ela é encarada (um pacto de mediocridade) e sobretudo indica a importância da educação como meio de transformação para uma sociedade melhor.
Acho que vale a pena a leitura e a reflexão.
Segue o texto abaixo:

Luta de Pactos

O Brasil tem um pacto de excelência no futebol e no esporte em geral. Mas, nos acostumamos a pactos de mediocridade em outras áreas: na economia, na sociedade, na cultura.

O melhor exemplo está na educação.

Como muitos dizem há anos, a educação brasileira é administrada por um pacto de mediocridade. Os alunos fazem de conta que estudam, os governos que pagam, os professores que ensinam, as famílias que os filhos aprendem, os políticos da oposição ignoram o problema e os da situação comemoram avanços insignificantes.

A mediocridade fica visível quando se considera um grande avanço ter 95% das crianças matriculadas, mesmo que 5% estejam fora da escola e no máximo 18% terminem o ensino médio com o mínimo da qualidade que o mundo moderno exige. O pacto da mediocridade faz com que se considere a matrícula mais importante do que a freqüência, a permanência, a conclusão e a qualidade.

Fica claro também quando se observa as greves que duram meses; as faltas constantes dos professores; as ausências dos próprios alunos; a aprovação automática dos que só assinam presença; a falta de acompanhamento das atividades escolares. Não se percebe, devido ao pacto da mediocridade, que o País está ficando para trás em relação aos demais países, mesmo em relação àqueles que são mais pobres do que o Brasil.

A maior prova do pacto de mediocridade está na falta de vontade de substituí-lo por um pacto de excelência. No lugar de cada um fechar os olhos às falhas dos outros, devemos fazer um pacto onde, por exemplo:
a) a sociedade exija que os governos paguem muito bem aos professores;

b) os professores sejam cobrados para não fazerem greves, não tirarem licenças desnecessárias, não faltarem às aulas, serem eficientes no ensino;

c) os pais exigirem dos professores o cumprimento de suas tarefas e os professores exigirem dos pais o acompanhamento das tarefas dos filhos;

d) os alunos receberem tarefas e serem incentivados e cobrados para realizarem tudo que é necessário para o aprendizado;

e) os políticos darem atenção à educação, cobrando, propondo e exigindo qualidade nos prédios escolares, nos seus equipamentos, no respeito aos professores e servidores, sobretudo nos salários e na formação;

f) a universidade ser apoiada nos recursos que precisa e ser cobrada nos seus resultados que deve trazer para o conhecimento.
Com as mudanças ocorridas a partir do fim do século passado, a disputa de classes entre capital e trabalho foi se apaziguando graças a acordos pactuados entre as empresas e os sindicatos. A globalização e a modernização permitiram que os trabalhadores qualificados conseguissem elevar a participação deles nas rendas das empresas. Mesmo continuando a desigualdade no patrimônio, reduziu-se a desigualdade na renda e na qualidade de vida entre os patrões e os trabalhadores com qualificação profissional elevada.

O mundo entrou em um grande pacto entre classes que participam do processo de globalização.

Ao mesmo tempo, aumentou a desigualdade dentro de cada país e no mundo inteiro, entre os que estão dentro da modernidade e as massas excluídas. Surgiu um muro separando os incluídos dos excluídos. A derrubada deste muro só poderá ser feita pela distribuição radical do conhecimento entre todos. A solução não está mais na velha idéia de estatizar os meios de produção, mas na distribuição igualitária do acesso à educação, a lógica política não está mais na luta de classes, mas em um pacto de excelência substituindo o pacto de mediocridade. No primeiro momento na educação e, a partir daí, em todos os setores da sociedade.



Cristovam Buarque é senador pelo PDT do Distrito Federal (www.cristovam.com.br)

Nenhum comentário:

Postar um comentário